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Sangue doado não é testado para dengue, mas deveria, lamenta ABHH

Cerca de 2% do sangue doado no Brasil pode estar contaminado com dengue, apontam especialistas. Risco de infecção é baixo, mas existe

No início deste mês, a Anvisa e o Ministério da Saúde emitiram uma nota técnica conjunta atualizando orientações sobre a dengue em doações de sangue. Um dos aspectos que chamou atenção foi a recomendação de considerar inaptas por 30 dias as pessoas que estiveram doentes, fizeram sexo com indivíduos infectados ou se vacinaram.

O risco de transmissão de dengue pelo sexo é baixo, mas já foi comprovado, portanto os especialistas orientaram a esperar para fazer a doação, já que o vírus poderia estar no sangue. No Hemocentro de Brasília, nos 15 primeiros dias de vigência da norma, apenas uma pessoa foi impedida de doar por este risco.

Para a Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), o cuidado que o governo está tendo agora é justo e necessário, mas reflexo de um despreparo para lidar com a chance de transmissão de dengue no sangue doado. A entidade acredita que todo o sangue doado no Brasil deveria ser testado para a doença, o que não ocorre atualmente.

“Por muito tempo, achamos que não deveríamos nos preocupar com casos assintomáticos de vírus da dengue no sangue, já que essa situação parecia incapaz de levar à doença. Mas estamos cada vez mais convencidos de que a infecção é uma ameaça. Nos últimos anos, já tivemos ao menos dois eventos comprovados de pessoas que tiveram dengue no Brasil por complicações nas transfusões”, indica o hematologista José Eduardo Levi, coordenador do comitê de doenças infecciosas transmitidas por transfusão da ABHH.

Até 2% do sangue doado tem dengue

Estudos publicados em 2016 no The Journal of Infectious Diseases mostraram que entre 1 e 2% de todo o sangue doado no Brasil carrega consigo o vírus da dengue. Nem todos os receptores, porém, são infectados pela doença.

Entre os que apresentam sintomas, é quase impossível descartar que eles não foram infectados pela forma mais tradicional, a picada do mosquito aedes aegypti.

Isso levou os infectologistas e hepatologistas a acreditarem que a transmissão da dengue depende de potencializadores na saliva do mosquito, hipótese que ainda está em estudo. As outras formas de contágio, porém, têm levantado cada vez mais preocupações.

“São cuidados necessários. O sangue, quando doado, pode ir para até três pacientes que já estão em condições de saúde debilitadas. As chances de adoentar mais essa pessoa, por menor que sejam, não podem ser toleradas. O princípio da transfusão sanguínea é sempre o da máxima precaução”, explica o hematologista Glaciano Nogueira Ribeiro, diretor administrativo da ABHH.

ABHH fará reunião sobre o tema

A associação fará uma reunião interna na próxima terça-feira (2/4) em que a questão será votada entre os membros para que seja emitida uma nota ao Ministério da Saúde aconselhando a testagem em massa. “Se há um país que precisa liderar essa adoção é o Brasil, maior vítima da dengue em escala global”, afirma Levi.

Os testes para dengue em larga escala, porém, teriam um impacto econômico e demandariam treinamento de pessoal para cobrir todas as cerca de 4 milhões de bolsas de sangue doadas no país anualmente. Para os pesquisadores, porém, passa da hora de dar os primeiros passos para que este investimento seja feito.

Doenças testadas no sangue

No mundo, apenas uma arbovirose (família de doenças transmitidas por mosquitos) é testada no sangue de doadores. Os Estados Unidos fazem o exame para a febre do Nilo, uma doença que parece se potencializar quando a infecção ocorre por transfusão sanguínea.

No Brasil, o sangue é testado em larga escala apenas para avaliar doenças de transmissão sexual, como as hepatites, sífilis e aids. Algumas cidades, como Manaus e Brasília, passaram a testar para malária em 2023.

Fonte: Metrópoles / Foto: Rafaela Felicciano

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